Eu estava dormindo, mas de repente algo me despertou. Eu andei e sem saber o porquê, me olhei no espelho. Havia um monstro - era eu. Quer dizer, deveria ser eu; afinal, era meu reflexo. Mas não minha imagem.
Então eu senti meu rosto sangrar. Um caco de vidro havia se partido do espelho, voou em minha direção e fez o corte. Ele não chegou a tocar no chão, ficou flutuando, como se nada relativo ao espelho recebesse a força da gravidade.
Outros cacos se partiram e fizeram mais cortes em mim. Eu estava sangrando, mas não me sentia fraca - muito pelo contrário! Eu me sentia leve e feliz, aqueles cortes eram benignos. Por causa deles eu sentia uma sensação há muito tempo esquecida por mim: a paz. Meu corpo estava sangrando, mas qual era o problema disso?
Quando o último caco se partiu eu percebi que havia algo preto dentro da armação, uma passagem! Eu não conseguia avistar um fim, era como um buraco negro. Igual ao estado do meu ser. A passagem me sugou e eu adentrei na escuridão.
Mas lá dentro, nada importava. Eu estava voando? Estava livre da dor sentimental, só sentia a dor física causada pelos cortes (que se abriam a todo instante), mas eu não me importava.
Foi então que eu avistei uma luz, a suposta luz da esperança no meio da escuridão. Eu flutuava involuntariamente para perto dela, mas eu não queria! Eu sabia que ela iria me afastar da minha escuridão, da minha paz de espírito.
Eu chegava mais e mais perto. Ouvia gritos. Ouvia risos lunáticos. O que seria aquilo...? Eu fiquei apavorada, e fechei os olhos.
De repente começou a tocar uma música conhecida. Era.. Era... Meu despertador? Abri meus olhos. O relógio marcava 6 horas da manhã e eu estava deitada em minha cama. Tudo não passara de um sonho?
Olhei em volta procurando o espelho. Nada. No lugar dele havia uma pintura feita com traços pretos irregulares, que formava um desenho de uma menina. Os olhos dela eram vermelhos e me miravam com certo ódio.
Dessa vez era uma imagem, e eu tinha certeza. Esse monstro era eu. Ou melhor: toda escuridão que me fizeram deixar pra trás.
(Escrito em algum momento de 2009)
Nenhum comentário:
Postar um comentário